domingo, 27 de novembro de 2011

PARALELAS - Watson Portela, o Bad Boy dos quadrinhos nacionais

Olá.
Hoje, volto a falar de quadrinhos.
Há algum tempo atrás, gastei uma pequena fortuna adquirindo algumas revistas em quadrinhos antigas. Mais como uma forma de resgatar a memória do quadrinho nacional (muito do material que adquiri eram revistas de artistas brasileiros dos anos 80 e 90).
Entre esse certame, veio alguns números de revistas adultas. E quase todas trazendo trabalhos de um artista que era muito conhecido nos anos 80, mas que hoje sumiu do circuito quadrinhístico e foi praticamente esquecido.
Bem. Hoje, aproveitando a oportunidade, então falarei de Watson Portela.

O HOMEM


Este artista foi um dos poucos artistas brasileiros a ganhar um fã-clube de seu trabalho – quando o normal eram os personagens ganharem fã-clubes. Isso porque ele não trabalhou exclusivamente com um único personagem em toda sua carreira. E também foi um dos primeiros artistas brasileiros a desenhar para revistas do exterior e para as grandes editoras dos EUA.
Watson Portela Barroso nasceu em Recife, Pernambuco, em 1950. Seu primeiro trabalho foi o único número do faroeste O Águia, feito em parceria com seu irmão, o roteirista Wilde Portela. Enquanto isso, desenvolveu pequenos trabalhos para outras revistas, entre capas e ilustrações.
Em 1976, ele pinta a capa do LP do grupo Quinteto Violado. Ele até chega a desenhar duas HQ para a editora EBAL, porém esses trabalhos nunca foram publicados.
Mas foi em 1978 que ele começou a se tornar conhecido nos quadrinhos, quando começou a publicar na editora Vecchi. Ele participou da revista Spektro, a mais importante revista de terror do período – e foi nela que ele iniciou a sua primeira série de histórias curtas, Paralelas. Um pouco mais tarde, para a mesma Vecchi, Portela desenha o faroeste Chet, uma espécie de versão nacional do italiano Tex (com a diferença de que Chet era mulherengo). Os roteiros, novamente, são do mano Wilde Portela. Chet durou 22 números.
A partir de 1980, Portela, mudando-se para Curitiba, começa a colaborar com a revolucionária editora Grafipar, onde desenha histórias de terror e eróticas sob o pseudônimo Barroso. Um dos seus mais conhecidos trabalhos na Grafipar foi o escrachado herói Super Gay.
Em 1982, Paralelas começa a ser publicada na revista Video BD, da França. No mesmo ano, para a editora RGE, Portela começa a desenhar para a série Colt 45, faroeste. Mas as três aventuras que produziu ficaram inéditas. Já nessa altura, Portela ganhou um fã-clube, o Clube Watson, quebrando um precedente – pela primeira vez, um artista ganhava um fã-clube. Ele já se firmava como o principal artista de quadrinhos “adultos” e “sérios” do Brasil, quando o termo ainda florescia.
Em 1983, Portela, voltando para Recife, começa a colaborar com a revista Inter Quadrinhos, da editora Ondas. Ele apareceu em quase todos os quatro números da 1ª série da revista, e em quase todos os seis números da 2ª série.
Entre 1984 e 1985, ele, mudando-se para São Paulo, começa a colaborar com a Press Editorial, desenvolvendo algumas histórias - é pela Press que começa a sair a sua segunda série de histórias oníricas, Voo Livre - histórias independentes caracterizadas pelos verdadeiros vos de imaginação do autor e pela falta de ligação entre os capítulos. E é pela Press que saem seus dois primeiros álbuns solo, a coletânea Paralelas e Entidade Zero, no ano seguinte.
Ainda em 1986, saem os quatro números da revista Paralelas, pela editora Asteróide. É uma coletânea do melhor de seu trabalho até então, ente histórias inéditas e já publicadas.
Em 1987, ele inicia sua colaboração com a editora Abril. Ele desenhou para as revistas Heróis da TV, He-Man, Gugu e para a revista Aventura e Ficção, uma coletânea de quadrinhos adultos que se tornou uma das revistas mais cultuadas dos anos 80 - foi um dos primeiros brasileiros a colaborar para essa publicação, que até então publicava quadrinhos de autores estrangeiros. Nela, começou a publicar comercialmente a série Voo Livre. Entretanto, com o cancelamento da revista, a publicação da série na Aventura e Ficção não chegou ao fim.
Em 1988, ainda para a Abril, ele desenha os dois números do gibi Jovem Radical, voltado ao público adolescente, com roteiros de José Menezes e José Evaldo de Oliveira. Mesmo nessa publicação para o público jovem ele não abriu mão de colocar um pouquinho de erotismo nas histórias – o que ele colocava em grandes doses em todas as outras. No mesmo ano, ele desenha o gibi promocional do herói War-Man para a rede de supermercados Pão de Açúcar, junto com Primaggio Mantovi.
Mais tarde, no final da década de 80, os trabalhos de Portela começam a ser publicados nas revistas adultas da editora Vidente: a Porrada Special e a Pau Brasil. Pouco esse material, entretanto, era inédito.
Em 1990, porém, problemas pessoais fizeram com que Portela voltasse para Recife. A partir daí, Portela limitou sua produção aos fanzines. Pouco material inédito seu foi publicado. O período áureo de sua carreira chegara ao fim.
Em 2002, ensaiando uma volta ao mercado, Portela publica dois álbuns pela editora Ópera Graphica: Paralelas II e A Última Missão, este último homenageando os super-heróis criados por Eugênio Collonese.
E, até este ano, ele ficou meio esquecido pelo mercado. Mas ele fez dois anúncios recentemente: ele está tentando uma editora para publicar três histórias inéditas e está desenhando uma graphic novel do personagem infantil Cabeça-Oca, de Christie Queiroz. Seus trabalhos atualmente estão sendo agenciados pelo seu filho Rafael Portela.
Existem duas páginas na internet que tentam resgatar seu trabalho: o site Paralelas, ainda em construção (http://www.angelfire.com/zine2/paralelas/) e o blog mantido por um fã (http://watsonportelaoficial.blogspot.com/).

A OBRA DELE
Quem já leu o trabalho de Watson Portela sabe bem do que ele era capaz.
Watson Portela tinha um traço limpo e detalhado, influenciado pelo quadrinho europeu (principalmente Moebius) e pelos mangás japoneses. Em suas histórias, ele fazia uso de diversos elementos inaceitáveis nos gibis de família: violência explícita (de preferência, com cabeças explodindo, membros voando, tripas saltando e sangue, muito sangue), erotismo (era constante a presença de mulheres nuas, e se mostrassem tudo, tudo mesmo, incluindo a piiih, melhor ainda) e linguagem de baixo calão (em muitos momentos, uma enxurrada dos mais sujos palavrões conhecidos da época em que “bunda” não era coisa para criança dizer na frente dos adultos). É isso aí: sexo explícito e violência ainda mais explícita. Leitura não recomendada para menores de 18 anos e para depois das refeições.
Isso, claro, nas revistas alternativas, de terror, eróticas e adultas, onde ele tinha toda a liberdade para fazer o que bem entendesse; já nas revistas mais comerciais, como a Aventura e Ficção e a Jovem Radical, Portela precisou se “comportar” um pouquinho. Nelas, ele não exagerava na violência e nem no erotismo. No máximo, as mulheres apareciam em roupas sumárias.
Já os roteiros eram caracterizados também por um certo pessimismo e falta de perspectiva no futuro, embora comportassem uma dose de humor. Geralmente, os seus personagens não terminam bem suas histórias. E ele também carrega na crítica à sociedade e às instituições vigentes – frutos dos anos 80 – bem como na crítica ao desprestígio dos artistas de quadrinhos. Um bom exemplo pode ser visto em um trecho de um capítulo de Voo Livre, onde ele imagina o futuro dos artistas num ditadura totalitária:

“(...) Os artistas em geral foram fuzilados em praça pública, só escapando os desenhistas de histórias em quadrinhos (ou fazedores de bonecos, como eram conhecidos), que só foram poupados porque a classe nunca foi reconhecida, portanto nunca existiu”.

Em Paralelas e Voo Livre, ele fazia uso da fantasia, do escapismo e das situações oníricas, criando um mundo particularmente seu, sem limitações, onde os personagens podiam voar, conviver com robôs, monstros, lutar contra a decadência da civilização (ou participar dela)... Enfim. Watson Portela era um legítimo filho dos anos 80, tempo em que o Quadrinho Adulto deixou de ser um conceito abstrato e veio com tudo nas bancas brasileiras. Os brasileiros estavam sendo influenciados pelo êxito do gênero na Europa e nos Estados Unidos, e só tiveram as limitações econômicas e de reconhecimento do público conterrâneo para desenvolverem seu trabalho – dentro do receituário seguido pelo Sr. Watson.

PARALELAS, A REVISTA
E vou apresentar a vocês a revista PARALELAS, da editora Asteroide. Esse é o material impresso do autor que tenho para servir de base a esta postagem sobre Watson Portela.
Bem. PARALELAS foi lançada em 1986. Seu título, provavelmente, é um trocadilho com o termo “Para lê-las”, já dizendo de cara que as histórias foram feitas para serem lidas e apreciadas como devem ser. Por isso, dirigidas ao público mais adulto e maduro. Todas as histórias foram ilustradas por Portela (a maioria escrita por ele, algumas por outros autores), com a colaboração de um ou outro artista. Foram quatro números lançados, a saber:

PARALELAS no. 1
Neste número, as histórias são todas então inéditas em qualquer outra publicação. Para começar, quatro episódios da série Voo Livre: The Clash mostra um homem medíocre, dominado pela esposa megera, descarregando seu ego como um guerreiro de armadura, defendendo uma moça estuprada por bandidos (a presença do erotismo e da violência já se faz presente); To Think mostra que pensar, às vezes, pode ser perigoso – ainda mais numa sociedade que tenta tolher o liberdade de pensamento; To Generate mostra a concepção de um demônio, em páginas literalmente fantásticas (incluindo sexo explícito entre duas entidades, uma feminina - possivelmente o mais ousado exercício de imaginação do Sr. Watson); To Believe trata de uma caçada humana; e, fechando com chave de ouro, Ser e Não Ser, Eis a Solução, uma história que faz uma crítica inteligente ao racismo. Nela, um rapaz negro é perseguido por uma turba ensandecida, que o culpa pelo (possível) estupro e assassinato de uma moça no metrô. Detalhe: o personagem negro foi desenhado pelo desenhista Lú Madeira (uma história a quatro mãos, portanto), cujos traços caricaturais chocam-se com a arte realista de Portela – propositalmente. Uma edição imperdível. E Portela também assina todas as ilustrações das capas.

PARALELAS no. 2
A partir daqui, o material, em grande parte, deixa de ser inédito. Começando com Alone, onde um punk, certa manhã, depara-se com a cidade vazia, e possivelmente tomada por alienígenas com cabeça de bichos (o que não fazem as drogas)... Voo Livre, sem título, é uma ficção científica mais palatável ao público (ou que os leitores entenderão mais facilmente) – dois astronautas investigando um planeta que abriga perigosas formas de vida; A Noite do Super-Herói traz, nas aventuras frustradas de um rapaz candidato a super-herói, um exercício de traço para Watson Portela, que enche as páginas também com heróis conhecidos; e Cão do Inferno, com roteiro de Júlio Emílio Braz, traz uma legítima história de terror violentíssima, passada na época da Balaiada (revolta popular ocorrida em Pernambuco, de 1838 a 1841). Nela, uma mulher, cuja família foi assassinada a mando de um importante homem da região, decide, após tentativas frustradas de enviar mercenários, fazer um pacto com um demônio, e concebe o instrumento de sua vingança. Corpos dilacerados, sangue e violência explicítíssima fazem este pequeno clássico. Não recomendável para depois das refeições.

PARALELA no. 3
Aqui, o título perde a letra “s”. As histórias: Código 52 traz dois mercenários – um deles recusa-se a tirar a máscara de ferro e mata sem perguntar nada – em sua atividade de sempre – e acabando se encrencando com a lei. Nessa história, Portela também insere dois personagens com as feições dos clássicos personagens belgas Tintin e Haddock, de Hergé. Voo Livre III traz um grupo tentando sobreviver a uma sociedade totalitária (é essa a história de onde extraí o trecho acima); e Alienígena traz uma pequena versão do filme Alien – o Oitavo Passageiro. Um grupo de astronautas vai investigar um planeta inóspito e... bem, precisa dizer mais? Até a criatura que ataca a nave é idêntica à do filme!!!

PARALELA no. 4
No último número publicado, temos: Capitão Resgate (texto de Helga Lauviah), que traz um mercenário e sua parceira, especializados em resgatar gente e bicho (e no final tem uma surpresinha com relação à pessoa a ser resgatada...); Opus – I é mais um exercício de imaginação onírica de Portela (difícil dizer do que trata essa história); ...Zero! Instante Um... traz mais uma exploração a um planeta inóspito – que nada mais é que um jogo entre os que ficaram na nave-mãe; no interlúdio, Portela coloca uma amostra das tiras do personagem cartunesco e humorístico Marleno, o aspirante a intelectual; O Cemitério Erótico (texto de Helga Lauviah) traz uma historinha pornográfica (produzida provavelmente nos tempos da Grafipar) sobre os riscos de piiih em um cemitério (tem muito casalzinho safado que faz isso ainda hoje); Gabriel é um pequeno clássico, sobre um mercenário que recebe a missão de resgatar a filha de um político em uma zona de rebeldes (é um dos trabalhos mais republicados do autor); Uma Grande (e curta) História de Amor é uma historinha humorística sobre um rapaz que tenta (inutilmente) falar com o pai de sua amada; É Natal, Não É? É um pequeno conto natalino passado na época do cangaço (e envolvendo um fantasma); e Fecus (mais uma com texto de Helga Leuviah) traz uma moça perseguida por um monstro feito de... hã... cocô. Mais uma leitura não recomendada para depois das refeições. E a mocinha ainda tem as roupas arrancadas e...

Bem. Só mesmo em sebos e gibiterias para adquirir esses pequenos clássicos do quadrinho brasileiro; porém, os scans das quatro edições podem ser baixados no blog Quadrinhos Brazukas (http://quadrinhosbrazukas.blogspot.com/search/label/ASTEROIDE). (aliás, eu só tenho em casa as edições 1, 2 e 4; a 3 eu baixei). Quem curte quadrinho brasileiro e adulto, curta sem receio – e os fracos de estômago preparem o saco de vômito, pois Portela, aqui, pega pesado em vários momentos.
É isso aí.
Para encerrar: hoje, resolvi fazer duas ilustrações no estilo Voo Livre e Watson Portela: simplesmente peguei o lápis e deixei a imaginação me guiar. Não planejei nada previamente, só fui desenhando e pronto. Um pequeno exercício de estilo e de imaginação.
Só para descontrair. Porque, convenhamos: estou longe de publicar HQ como o Watson Portela. Buá!
Até mais!

2 comentários:

Claudio Soares Sampaio disse...

Uma matéria muito boa, meu caro...

mas convenhamos: os sites indicados são muito pobres diante da magniyude de nosso nobre artista.

Entrei no blog do Mozart Couto também e que pobreza! Mas miozinho...

Penso que a falta de apreciaçao de nossos quadrinhos tupiniquins se deve em grande parte a falta de divulgaçao.

O temos de novidade na nona arte?

Wagner Moloch disse...

Olá Rafael, boa noite !
Agradeço pela citação ao blog www.watsonportelaoficial.blogspot.com
Ele é um canal oficial do Watson, a maior parte do material publicado é enviado por ele atrás do filho Rafael (seu xará hehe) Estamos lutando por relançamentos. Digo estamos pois faço parte da equipe dele para tal, toda força ao quadrinho nacional é necessária, valeu mesmo.

Grande abraço

Wagner Moloch